Pistas sob o gelo: O que uma “praia antiga” na Antártida nos diz sobre o amanhã.
Cientistas do projeto SWAIS2C (Sensibilidade da Camada de Gelo da Antártida Ocidental ao Aquecimento de 2°C) acabam de alcançar um feito histórico. Eles perfuraram mais de 500 metros de gelo para extrair o núcleo de sedimento mais profundo já recuperado da região: um “tubo” de rocha e lama com 228 metros de comprimento.
Este material funciona como uma cápsula do tempo, contendo registros climáticos dos últimos 23 milhões de anos.
Uma “praia” onde hoje só existe gelo
A grande surpresa da análise preliminar foi a descoberta de fósseis de organismos marinhos que precisam de luz solar para viver e fragmentos de conchas em camadas arenosas. Isso sugere que a região, hoje coberta por uma camada colossal de gelo, já foi uma oceano aberto — quase como uma praia.

Crédito: Foto: Ana Tovey / SWAIS2C / Divulgação.
Para os geólogos, isso é um sinal de alerta: se a Plataforma de Gelo Ross já derreteu completamente no passado em períodos mais quentes, o mesmo pode acontecer nos próximos séculos.
A urgência do Acordo de Paris
O estudo foca em entender como o planeta se comporta quando a temperatura ultrapassa 2°C acima dos níveis pré-industriais. Se a camada de gelo da Antártida Ocidental derreter totalmente, o nível global do mar pode subir entre 4 a 5 metros, redesenhando o mapa das cidades costeiras em todo o mundo.
“Estamos tentando restringir o que vai acontecer com quase toda a Terra no próximo século”, afirma Huw Horgan, glaciologista e um dos chefes da expedição.
Próximos passos
A amostra recordista já chegou à Nova Zelândia para análises laboratoriais profundas. Os cientistas esperam que esses dados ajudem a prever com exatidão o “ponto de não retorno” do derretimento das calotas polares, ajudando governos e a sociedade a se prepararem para os impactos das mudanças climáticas.